As sociedades modernas cultivam uma curiosa superstição: a de que os seres humanos são capazes de criar algo inteiramente novo. A crença assume muitas formas. Aparece na política, sob a forma de revoluções que prometem um homem inédito; na tecnologia, como a convicção de que cada inovação nos afasta definitivamente do passado; e na arte, como a obsessão pela originalidade.
Poucas ideias são mais lisonjeiras para o ego humano.
A originalidade oferece ao escritor aquilo que as antigas religiões ofereciam aos santos: a esperança de escapar da condição comum. Ser original significa existir de maneira diferente. Significa ser o início de alguma coisa.
O problema é que os começos absolutos pertencem aos mitos de criação, não à experiência humana.
Os homens são criaturas imitativas. Aprendem a falar repetindo palavras que outros disseram; aprendem a amar reproduzindo gestos que viram em outros; aprendem a pensar mediante ideias que os precedem. A imagem do indivíduo soberano, capaz de produzir a si mesmo e às suas obras a partir de um núcleo inteiramente próprio, é uma das ficções mais persistentes da modernidade.
A literatura oferece um antídoto contra essa fantasia, e poucos escritores o administraram com tanta precisão quanto Borges.
Em “Pierre Menard, autor do Quixote”, um escritor francês do século XX decide escrever algumas páginas de Dom Quixote exatamente como Cervantes as escreveu. O projeto é absurdo, mas toda grande sátira se constrói sobre um absurdo que revela uma verdade.
A verdade é que nenhuma obra existe fora do tempo.
As mesmas palavras, escritas por outro homem e em outra época, tornam-se outra coisa. O Quixote de Menard não é o de Cervantes, ainda que cada vírgula coincida. O sentido está na teia de circunstâncias, tradições e acidentes históricos que as envolvem.
A ideia de autoria soberana começa então a desmoronar.
Os escritores modernos costumam imaginar-se proprietários de suas obras. Falam em “encontrar a própria voz”, como se essa voz estivesse escondida em algum lugar recôndito do eu, aguardando ser descoberta. Mas o eu é, em grande medida, um artefato composto de fragmentos alheios. Somos feitos de livros esquecidos, frases ouvidas na infância, memórias mal preservadas e preconceitos herdados. Nossa suposta singularidade é uma combinação ligeiramente distinta de elementos muito antigos.
Schopenhauer observou que cada indivíduo se considera uma exceção às leis que governam os demais. A crença na originalidade é uma variante literária dessa ilusão. O escritor admite que todos os outros são tributários de influências; ele, o escritor, imagina ter encontrado uma fonte secreta de novidade.
A história da literatura sugere outra coisa.
Os grandes autores não derrotaram a tradição. Foram derrotados por ela de maneira particularmente fecunda. Shakespeare tomou emprestadas histórias antigas. Dante escreveu à sombra de Virgílio. Kafka parece ter inventado um novo universo, mas hoje lemos seus livros e descobrimos neles ecos de mitos muito mais antigos.
A própria ideia de inovação permanente é produto de uma civilização que passou a acreditar no progresso como outros tempos acreditaram na providência divina.
O século XX deveria ter curado essa ilusão.
Assistiu a guerras industriais, genocídios e experiências políticas que prometeram um homem novo e produziram novas formas de barbárie. Ainda assim, a fé na novidade permaneceu intacta. O culto da originalidade é um de seus últimos refúgios.
Talvez porque a alternativa seja difícil de aceitar.
Se nada é inteiramente novo, então nossa existência possui menos importância do que gostaríamos de imaginar. Se os livros que escrevemos pertencem a uma conversa iniciada muito antes de nosso nascimento, então não somos fundadores, mas participantes tardios. Se as ideias que consideramos nossas são ecos de pensamentos antigos, então nossa individualidade é mais tênue do que supomos.
Há algo de humilhante nessa conclusão.
Mas há também uma forma de liberdade.
A obsessão pela originalidade é exaustiva porque exige o impossível. Obriga o escritor a agir como um deus menor, encarregado de criar um mundo a partir do nada. Renunciar a essa tarefa é aceitar uma condição mais modesta e talvez mais verdadeira.
Os mortos escrevem conosco.
Cada frase carrega palavras usadas por incontáveis gerações; cada imagem possui ancestrais esquecidos; cada livro é um breve desvio em uma corrente que continuará a fluir quando seu autor desaparecer. A literatura, como a própria civilização, é uma obra coletiva produzida por pessoas que jamais se conheceram.
Nada disso torna a escrita menos importante.
Pelo contrário.
A obra, quando bem realizada, atravessa vidas, muda de sentido, encontra leitores que seu autor jamais poderia imaginar. O escritor não é um criador ex nihilo, mas um guardião temporário de certas formas e certas palavras.
Essa é a única imortalidade acessível aos seres humanos.
Não a sobrevivência do eu — essa antiga fantasia religiosa reciclada pela cultura moderna —, mas a permanência impessoal de algumas frases, algumas imagens, alguns gestos de linguagem.
Os homens passam. Os livros também passam, embora mais lentamente. Mas, por um breve intervalo, ambos participam de algo que os excede.
Talvez seja suficiente. Talvez a verdadeira sabedoria consista em abandonar o desejo infantil de ser o primeiro e aceitar, com uma espécie de gratidão melancólica, que somos mais uma voz na longa conversação dos mortos.
E, por alguns instantes, antes que o silêncio nos alcance, isso é uma forma de eternidade.
A vaidade é uma das poucas paixões humanas capazes de se ocultar sob a aparência da virtude. Quase ninguém admite desejar reconhecimento; preferimos dizer que buscamos servir, colaborar, contribuir. O amor-próprio é um grande romancista: reescreve nossos interesses como deveres e nossos anseios de importância como generosidade.
Quando retornei a Ipiaú, fui atraído para diferentes iniciativas culturais. Participei da elaboração do FestContas ao lado da Casa da Cultura; somei esforços com a Voo Audiovisual na segunda edição da Flipiaú; envolvi-me na edição de livros, na produção de documentários, em histórias em quadrinhos, ilustrações, podcasts, fanzines e blogs.
Por muito tempo, contei a mim mesmo uma história bastante conveniente. Acreditei que fazia tudo aquilo pela cultura de minha cidade. Talvez houvesse, de fato, algo disso. Os motivos humanos raramente são puros. Mas havia outra coisa, mais profunda e menos confessável: eu queria ser necessário. Queria ver pessoas mobilizadas, queria que os projetos prosperassem, queria encontrar, no entusiasmo alheio, uma confirmação de que minha presença tinha algum peso.
Esse desejo é um traço da espécie. Os seres humanos têm dificuldade em aceitar a própria insignificância. Diferentemente dos outros animais, precisamos acreditar que nossas vidas participam de alguma narrativa maior. Inventamos missões, causas, vocações e legados porque a ideia de sermos apenas criaturas transitórias nos parece intolerável.
Mas o mundo não se organiza em torno das nossas necessidades psicológicas.
Mais cedo ou mais tarde, a realidade impõe uma verdade que nenhuma filosofia do otimismo consegue dissolver: quase ninguém é indispensável. Os projetos que julgamos fundamentais encontram outros executores; os grupos aos quais dedicamos anos de nossa vida seguem adiante; as instituições sobrevivem às nossas ausências com uma facilidade desconcertante. A história humana é um cemitério de homens e mulheres que se acreditaram centrais para acontecimentos que logo aprenderam a esquecê-los.
Nos últimos meses, venho refletindo sobre isso. Hoje agradeci aos membros da Academia de Letras do Médio Rio das Contas pelo carinho e comuniquei meu afastamento do grupo.
Nossa necessidade de importância costuma ser muito maior do que nossa importância real. O protagonismo que atribuímos a nós mesmos é, em grande medida, uma ficção produzida para nos proteger do fato de que somos substituíveis.
Os antigos estóicos recomendavam que nos lembrássemos da morte. Talvez fosse mais útil que nos lembrássemos do esquecimento. Morreremos; seremos esquecidos. Os esforços aos quais dedicamos nossas energias desaparecerão ou serão absorvidos por outras mãos. O mundo, que parecia precisar de nós, continuará seu curso com uma indiferença quase perfeita.
À primeira vista, essa é uma conclusão sombria. Mas há nela uma estranha forma de graça.
Se não somos os protagonistas da história, tampouco carregamos o peso de sustentá-la. Se o mundo não depende de nós, podemos finalmente abandonar a exaustiva obrigação de parecermos necessários. Os rios continuarão a correr, os livros continuarão a ser escritos, as conversas seguirão seu curso e as cidades permanecerão entregues às suas pequenas esperanças e aos seus inevitáveis esquecimentos.
Talvez a sabedoria consista em aceitar que somos apenas visitantes. Não os autores do enredo, mas personagens secundários de uma peça antiga e indiferente.
E, quando essa verdade finalmente se impõe, algo em nós se aquieta. O desejo de deixar uma marca cede lugar ao raro privilégio de simplesmente existir. O espetáculo prossegue sem a nossa direção, sem a nossa presença e, um dia, sem a nossa memória. Longe de ser uma tragédia, isso pode ser um alívio.
Porque, ao renunciar à fantasia de sermos indispensáveis, descobrimos uma liberdade que a vaidade jamais poderia oferecer: a de caminhar para fora do palco, em silêncio, e deixar que o mundo continue sem nós.
Existem palavras que deixam de designar a realidade para funcionar como amuletos. Em determinados ambientes, elas dispensam demonstração, suspendem o contraditório e instauram uma pequena liturgia da obediência. Durante muito tempo, poucas cumpriram esse papel com tanta eficiência quanto o adjetivo acadêmico.
Basta qualificá-lo assim para que um argumento adquira uma espécie de imunidade ritual. A discussão deixa de girar em torno da consistência das evidências ou da coerência do raciocínio. O selo basta. O interlocutor que insiste em pedir demonstrações passa a ocupar, por um curioso deslocamento semântico, a posição de obscurantista. A palavra converte-se em tribunal, e a autoridade substitui aquilo que deveria legitimá-la: a força dos argumentos.
Essa inversão revela um equívoco profundamente moderno. Desde Max Weber sabemos que as instituições vivem de formas de legitimação que sobrevivem muito depois de perderem a energia intelectual que as criou. Pierre Bourdieu descreveu esse fenômeno ao mostrar que os campos científicos acumulam capital simbólico, um patrimônio de prestígio que pode continuar produzindo deferência mesmo quando seus mecanismos internos deixam de funcionar com o rigor esperado. A ciência nunca dependeu desse capital para produzir conhecimento; dependeu, antes, da permanente disposição para destruir as próprias certezas. Karl Popper sintetizou essa exigência de maneira quase brutal: "o critério do estatuto científico de uma teoria é a sua falseabilidade". Quando uma afirmação deixa de admitir a possibilidade de refutação, ela já não pertence ao universo da ciência. Pertence ao domínio da ortodoxia.
O curioso é que muitos dos que mais recorrem ao adjetivo acadêmico parecem esquecer justamente aquilo que distingue o trabalho universitário de qualquer catecismo: metodologia rigorosa, controle de vieses, revisão crítica permanente, abertura à contestação e disposição para abandonar hipóteses fracassadas. A academia nasceu como um espaço institucionalizado para a dúvida. Transformá-la numa fonte de verdades inquestionáveis equivale a negar sua própria razão de existir.
Enquanto o interlocutor aceita intimidar-se pelo vocabulário técnico, a encenação funciona sem maiores dificuldades. Os jargões produzem uma atmosfera de competência que frequentemente substitui a própria competência. Ortega y Gasset observava que a especialização excessiva cria um tipo humano peculiar: o "sábio ignorante", profundamente competente numa estreita parcela da realidade e extraordinariamente confiante fora dela. A proliferação contemporânea desse personagem talvez explique parte do problema. O prestígio do especialista passou a valer como autorização para qualquer pronunciamento, ainda que ele escape completamente ao domínio em que sua expertise foi construída.
Quando, porém, o debate encontra alguém familiarizado com os métodos, as fontes ou a bibliografia, a retórica sofre um deslocamento previsível. O que antes era apresentado como conclusão definitiva passa, subitamente, a ser apenas um "recorte metodológico". A palavra que encerrava a discussão reaparece agora reduzida a uma escolha entre muitas outras possíveis. O argumento deixa de reivindicar universalidade e procura abrigo na relativização. O curioso é que ambas as posições dificilmente podem coexistir. Se a conclusão depende inteiramente do recorte, ela jamais poderia ter sido apresentada como verdade indiscutível. Se constitui uma verdade sólida, o recorte não pode servir como álibi para escapar às objeções.
Esse mecanismo não é novo. Só ganhou novas formas de circulação.
Foi impossível não recordar o episódio que entrou para a história como Caso Sokal. Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu à revista Social Text um artigo deliberadamente destituído de sentido, repleto de impropriedades conceituais, raciocínios inválidos e jargões cuidadosamente distribuídos para produzir uma aparência de sofisticação intelectual. O texto defendia, entre outras extravagâncias, que a gravidade seria uma construção social e linguística. Publicado sem consulta a especialistas em física, o artigo atravessou todo o processo editorial protegido justamente pelo prestígio da linguagem que empregava.
Depois da publicação, Sokal revelou tratar-se de uma fraude cuidadosamente planejada. Seu objetivo não consistia em ridicularizar toda a produção das humanidades, como tantas vezes se afirma de maneira simplista, mas testar até que ponto determinadas comunidades intelectuais haviam passado a valorizar a conformidade ideológica acima da consistência argumentativa. A experiência produziu um desconforto raro porque revelou algo mais perturbador do que um erro editorial. Foi possível perceber que oprestígio institucional pode anestesiar justamente os mecanismos críticos encarregados de protegê-lo.
Richard Feynman costumava advertir que "o primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo — e você é a pessoa mais fácil de enganar". Poucas frases descrevem tão bem a fragilidade das instituições intelectuais. O perigo sempre residiu na facilidade com que comunidades inteiras aprendem a reconhecer como profundidade aquilo que apenas reproduz o vocabulário esperado.
Seria reconfortante acreditar que episódios dessa natureza produziram reformas duradouras. A história recente inspira uma conclusão menos otimista. Instituições humanas raramente aprendem de maneira definitiva. Corrigem um defeito enquanto cultivam outro. Abandonam um dogma apenas para fabricar seu sucessor.
Quando setores da extrema-direita passaram a investir contra as universidades, encontraram terreno fértil justamente porque alguns intelectuais pareciam empenhados em confirmar os estereótipos mais caricatos de seus adversários. A caricatura tornou-se matéria-prima da propaganda. Bastaram alguns professores transformando conferências em performances narcisistas, algumas teses de relevância duvidosa e uma quantidade razoável de exibicionismo moral para que décadas de produção científica séria fossem reduzidas, aos olhos do público, a uma coleção de excentricidades.
Essa tragédia possui uma ironia difícil de ignorar. Os inimigos da universidade jamais precisaram compreender seu funcionamento para atacá-la. Bastou explorar as deformações produzidas por aqueles que mais reivindicavam falar em seu nome. Toda instituição suficientemente antiga produz seus próprios anticorpos e também suas próprias doenças. A universidade não escaparia dessa regra porque nenhuma instituição criada por seres humanos consegue escapar.
John Gray observa que uma das ilusões persistentes do pensamento moderno consiste em imaginar que o conhecimento torna a espécie humana moralmente superior. A história sugere exatamente o contrário. O conhecimento amplia instrumentos; raramente transforma caráter. Civilizações acumulam bibliotecas inteiras enquanto continuam repetindo antigas formas de vaidade, tribalismo e autoengano. As universidades, como qualquer outra instituição, permanecem submetidas à mesma condição antropológica. Produzem descobertas extraordinárias. Produzem também sacerdotes convencidos de sua própria infalibilidade.
Talvez a maior ameaça ao pensamento nunca tenha sido a ignorância. A ignorância reconhece seus limites com mais frequência do que a inteligência institucionalizada. O verdadeiro perigo começa quando o prestígio substitui a investigação, quando o vocabulário ocupa o lugar da evidência e quando a autoridade passa a dispensar a demonstração. Nesse instante, a universidade deixa de cumprir sua vocação mais elevada e se converte em mais uma igreja entre tantas outras.
Toda ortodoxia imagina possuir um monopólio da verdade. Toda ortodoxia acaba descobrindo, cedo ou tarde, que apenas administrava um monopólio da linguagem. A verdade, indiferente aos nossos títulos, às nossas credenciais e aos nossos congressos, continua existindo muito depois que os aplausos cessam. Ela nunca precisou de certificados. Muito menos de sacerdotes.
Há lembranças que permanecem conosco por razões que escapam à lógica. Santo Agostinho dizia que a memória é um vasto palácio onde repousam coisas que já deixaram de existir. Costumo pensar que ela também possui um senso de humor bastante peculiar. Entre tantas cenas da infância que poderiam ter sobrevivido ao tempo, uma das que insistem em voltar é a do meu tio Neilton me acordando depois da meia-noite para dividir um pedaço de pizza enquanto assistia a Porky's – A Casa do Amor e do Riso, num daqueles programas da madrugada, talvez o Corujão, talvez outro qualquer. O nome do programa se perdeu. A cena permaneceu intacta.
Era o final da década de 1980. Minha avó havia comprado, fazia pouco, um televisor de quatorze polegadas. Hoje parece um objeto insignificante. Naquele tempo era quase um acontecimento doméstico. Neilton trabalhava num trailer de lanches em frente ao Rio Novo Tênis Clube e voltava para casa já de madrugada. Trazia refrigerantes, sanduíches, pizza, qualquer coisa que tivesse sobrado. Depois ia até a cama onde eu dormia, sacudia meu ombro com delicadeza e dizia que havia comida. Toda criança acredita que existe uma forma secreta de felicidade. A minha, durante algum tempo, chegava depois da meia-noite.
Naquela noite a televisão exibia Porky's. Quem cresceu nos anos imediatamente posteriores ao fim da ditadura talvez se lembre da solenidade com que a censura ainda sobrevivia nos avisos da programação. Antes do filme, uma voz grave informava aos pais que aquela obra era proibida para menores de dezoito anos. Eu devia ter sete ou oito.
Na manhã seguinte, fiz o que qualquer menino faria. Reuni a molecada da rua e comecei a narrar, com a riqueza de detalhes que só a imaginação infantil consegue produzir, tudo aquilo que julgava escandaloso. Meus ouvintes permaneciam imóveis, hipnotizados. Durante alguns minutos experimentei uma sensação rara: eu era o único proprietário de um conhecimento proibido.
A plateia começou, então, a olhar para trás de mim. Primeiro um, depois outro, até que todos exibiam a mesma expressão de pânico. Continuei falando, incapaz de compreender o motivo daquele silêncio repentino. Quando me virei, encontrei minha mãe parada, braços cruzados. A pergunta veio seca: quem havia permitido que um menino assistisse àquele filme? A resposta foi igualmente simples. Sobrou para Neilton.
Ele me deu um carrinho de pedal, um Ferrorama e boa parte das histórias que ainda hoje conto. Cresceu ao meu lado como se fosse um irmão mais velho, apresentando o mundo por caminhos que os pais jamais escolheriam. A literatura costuma dividir seus personagens entre heróis e vilões. A vida raramente concede esse conforto. Neilton acumulava virtudes e ruínas na mesma proporção. Nunca assumiu plenamente a responsabilidade pelos filhos, rompeu com quase toda a família, cultivou hábitos que lentamente o destruíram. Montaigne observava que cada homem carrega "a forma inteira da condição humana". Talvez por isso seja tão difícil resumir alguém em meia dúzia de adjetivos. Somos feitos de contradições muito antes de sermos feitos de convicções.
Hoje pela manhã recebi uma mensagem de voz da minha tia Telma.
"Fagner, bom dia. Neilton acabou de partir."
Eu já esperava essa notícia. A doença vinha anunciando seu trabalho com a paciência de quem nunca falha. Mesmo assim fui para o quarto chorar, longe dos olhos de minha mãe. Cada família desenvolve seu próprio idioma para lidar com a dor. Na minha, muitas vezes o amor assume a forma do silêncio.
Antonio Candido escreveu que a literatura humaniza porque amplia nossa capacidade de compreender a complexidade do outro. Talvez a memória faça algo semelhante. Com o passar dos anos ela deixa de distribuir medalhas e condenações. Passa apenas a conservar aquilo que resistiu ao desgaste do tempo. Curiosamente, o que resistiu em Neilton nunca foram seus erros. Foram as madrugadas, a pizza, o carrinho de pedal, o Ferrorama, as risadas, a sensação infantil de que o mundo ainda cabia inteiro dentro de uma sala iluminada por um televisor pequeno.
Marcel Proust percebeu que o passado nunca permanece onde acreditamos tê-lo deixado. Ele reaparece inteiro quando um sabor, um cheiro ou uma imagem lhe abre passagem. Hoje descubro que ouvir a voz da minha tia bastaria para que quarenta anos desabassem sobre mim de uma só vez.
A morte sempre chega com um significativo raio de destruição. Cada pessoa desaparecida encerra um arquivo que ninguém mais será capaz de consultar. Certas piadas deixam de fazer sentido. Certas histórias perdem a única testemunha capaz de confirmá-las. Certos apelidos deixam de existir porque já não há quem os pronuncie. Morre uma pessoa, e junto dela desaparece uma maneira particular de enxergar o mundo.
Eu não chorava por Neilton. Chorava pelo menino que acordava de madrugada acreditando que a felicidade tinha cheiro de pizza requentada. Chorava pela casa da minha avó, pela televisão de quatorze polegadas, pela rua onde todos se conheciam, pelo tempo em que a morte parecia um acontecimento reservado aos velhos.
Borges escreveu que "somos nossa memória". Talvez tenha exagerado. Somos também aquilo que a memória perde, aquilo que ela deforma e aquilo que decide preservar sem nos consultar. Ainda assim, cada morte arranca uma página desse livro invisível que carregamos desde a infância. Chega um momento em que percebemos que estamos assistindo, em silêncio, ao lento desaparecimento do mundo que nos fez existir.
E é essa a forma mais cruel da finitude. A morte jamais se contenta em levar um homem. Ela entra de mãos vazias e sai carregando uma época inteira. O que fica para os vivos é a tarefa impossível de habitar um mundo onde continuam existindo as ruas, as casas e as fotografias, enquanto o único lugar capaz de reunir todos aqueles que amamos passa a ser a memória. E a memória, como toda biblioteca antiga, um dia também fechará as portas.
Os homens inventaram o esporte para suspender a violência por noventa minutos. Ao apito final, a história costuma reclamar aquilo que lhe pertence.
Há uma superstição moderna segundo a qual a civilização progride. Ela não costuma aparecer em tratados filosóficos. Vive escondida em lugares mais discretos: nos discursos de dirigentes, nas campanhas publicitárias, nas transmissões esportivas e nas cerimônias de abertura de grandes eventos internacionais. Toda Copa do Mundo, toda Olimpíada, toda Exposição Universal renova o mesmo credo. Povos diferentes se encontram. Bandeiras convivem pacificamente. A competição substitui a guerra. O talento ocupa o lugar da força. Durante algumas semanas, acredita-se que a humanidade conseguiu domesticar a própria natureza.
O curioso é que essa esperança sempre dura menos do que o torneio.
Enquanto milhares de pessoas discutiam impedimentos, probabilidades matemáticas e arbitragens controversas, navios eram atingidos no Estreito de Ormuz. Aviões caíam. Tiros ecoavam em cidades que se acostumaram a chamar a si mesmas de desenvolvidas. Encerrado o último jogo do Irã, a guerra retomou sua rotina com a disciplina de um funcionário público que apenas aguardava o intervalo do almoço.
A ilusão desaparece rápido porque jamais passou de uma pausa psicológica.
Costumo lembrar que uma das características mais persistentes da cultura ocidental consiste em imaginar que a história possui direção. Herdamos essa expectativa do cristianismo e apenas substituímos sua linguagem religiosa por um vocabulário secular. Onde antes existia a salvação, surgiu o progresso. Onde havia providência, instalou-se a tecnologia. O Juízo Final foi trocado pela democracia liberal, pela inteligência artificial ou por qualquer outro mito conveniente ao século.
O roteiro permanece idêntico. Sempre caminhamos para algum lugar. O problema consiste em que a experiência humana jamais confirmou essa narrativa.
As guerras mudam de uniforme. Os impérios trocam de nome. Os instrumentos tornam-se mais sofisticados. A criatura que aperta o gatilho continua surpreendentemente parecida com aquela que empunhava uma lança há quatro mil anos.
A diferença está na estética da violência.
Os gregos compreendiam isso melhor do que nós. Para eles, a tragédia nunca prometia um mundo reconciliado. Ésquilo escreveu Os Persas poucos anos depois da batalha de Salamina. Em vez de celebrar a superioridade grega, ofereceu ao público ateniense um retrato da dor do inimigo. A peça constitui talvez o primeiro grande monumento literário à inutilidade da vitória. Os vencedores descobrem que também pertencem ao império do sofrimento.
Essa percepção desapareceu da política contemporânea.
Hoje preferimos imaginar que cada conflito representa a batalha definitiva entre o bem e o mal. Mudam os protagonistas; preserva-se a estrutura moral. A Guerra Fria terminou. Surgiu a Guerra ao Terror. Esta perdeu centralidade. Vieram as guerras culturais. Depois, os conflitos híbridos. Em seguida, as disputas tecnológicas. A humanidade revela extraordinária criatividade para modificar o vocabulário. Seu repertório emocional permanece quase imóvel.
O futebol oferece um laboratório fascinante dessa condição.
Poucos eventos despertam sentimentos tribais com tanta intensidade. Camisas convertem-se em identidades. Derrotas adquirem estatuto de humilhações nacionais. Vitórias parecem corrigir injustiças históricas. Benedict Anderson observou que as nações são comunidades imaginadas. Durante uma Copa do Mundo, essa imaginação alcança seu estado mais puro. Milhões de indivíduos que jamais se encontrarão experimentam uma emoção comum diante da mesma tela.
Nada disso é falso.
Também não significa que o nacionalismo desapareça sob a fraternidade esportiva. Costuma acontecer justamente o contrário.
Carl Schmitt talvez enxergasse nesse espetáculo uma confirmação de sua velha tese sobre o político. A distinção entre amigo e inimigo não precisa de campos de batalha para existir. Basta que uma coletividade reconheça outra como adversária. O estádio fornece símbolos suficientes para alimentar essa necessidade ancestral.
Durante algumas semanas, a rivalidade parece inocente. Logo depois, ela reencontra seus instrumentos tradicionais. A situação do Irã torna essa dinâmica especialmente eloquente. Uma seleção nacional transforma-se, de repente, em extensão simbólica de um país sob ataque. Cada defesa do goleiro deixa de ser somente uma defesa. Cada gol anulado passa a carregar significados que escapam completamente ao regulamento esportivo. O impedimento pertence à narrativa nacional.
Pouco importa se houve erro humano, coincidência estatística ou manipulação.
As sociedades vivem de interpretações muito mais do que de fatos.
René Girard compreendeu isso quando descreveu a lógica sacrificial das comunidades humanas. Grupos inteiros organizam sua identidade mediante histórias compartilhadas sobre culpa, perseguição e redenção. A verdade objetiva ocupa papel secundário. Importa que o enredo seja capaz de produzir coesão.
Os iranianos talvez retornem para casa como heróis derrotados. Heróis derrotados costumam ser politicamente mais úteis do que vencedores. Roma conhecia esse mecanismo.
Também o conheciam os hebreus após a destruição do Segundo Templo. A Sérvia conheceu-o depois da batalha de Kosovo.
Cada civilização produz sua coleção de derrotas gloriosas.
A memória nacional raramente distingue entre aquilo que aconteceu e aquilo que precisava ter acontecido para sustentar determinada identidade coletiva.
Essa constatação incomoda porque desmonta uma das crenças favoritas do nosso tempo: a de que mais informação produzirá cidadãos mais racionais.
Nunca tivemos tantos dados. Jamais estivemos tão cercados por narrativas concorrentes. A abundância informacional não reduziu o conflito. Mas multiplicou suas versões.
Thomas Hobbes talvez sorrisse diante desse espetáculo. O filósofo inglês jamais acreditou que os homens fossem naturalmente inclinados à cooperação universal. A paz, para ele, exigia instituições suficientemente fortes para conter impulsos permanentes. Removido esse equilíbrio, retornava aquilo que sempre esteve presente.
A guerra. Meu ceticismo nasce justamente da recusa em tratar a violência como acidente histórico. Ela constitui um componente estrutural da espécie. Esperar sua eliminação equivale a esperar que os leopardos abandonem espontaneamente a caça por reconhecerem o sofrimento das gazelas.
A metáfora parece cruel. A história costuma ser mais cruel do que as metáforas.
Existe uma passagem pouco comentada de Freud em O mal-estar na civilização. Ali, ele descreve o ser humano como criatura incapaz de amar o próximo de forma espontânea. A agressividade antecede a fraternidade. A cultura só administra essa energia destrutiva sem jamais suprimi-la.
Talvez por isso as cerimônias esportivas exerçam tamanho fascínio.
Durante algumas horas, conseguimos acreditar que o antagonismo encontrou uma forma elegante de expressão. Os hinos substituem as marchas militares. As arquibancadas ocupam o lugar das trincheiras. O árbitro parece mais civilizado que o general.
Terminada a partida, os generais continuam existindo. Os árbitros voltam para casa. O restante pertence ao velho enredo humano.
Há quem veja nisso motivo para desespero.
O abandono das ilusões frequentemente representa um ganho intelectual. A esperança compulsória costuma produzir mais fanáticos do que a lucidez. Os grandes projetos de redenção nasceram quase sempre da convicção de que finalmente compreendemos o sentido da história. O século XX forneceu um catálogo suficientemente amplo de seus resultados.
Talvez a maturidade política comece justamente quando deixamos de esperar que algum evento — uma eleição, uma tecnologia revolucionária, um tratado internacional ou mesmo uma Copa do Mundo — transforme a condição humana.
Os acontecimentos importam. Os homens permanecem. O verão termina. O campeonato acaba. Os estádios esvaziam-se. Os drones substituem os refletores. Os mapas voltam às manchetes. Algum cronista escreverá sobre heroísmo. Algum estrategista falará em segurança nacional. Algum dirigente prometerá paz duradoura.
A história ouvirá tudo com a paciência de quem já escutou esse discurso milhares de vezes. Ela conhece um segredo que a modernidade insiste em esquecer. Os homens raramente interrompem a guerra. Costumam apenas marcar um jogo antes de retomá-la.
Há uma superstição moderna segundo a qual a civilização progride. Ela não costuma aparecer em tratados filosóficos. Vive escondida em lugares mais discretos: nos discursos de dirigentes, nas campanhas publicitárias, nas transmissões esportivas e nas cerimônias de abertura de grandes eventos internacionais. Toda Copa do Mundo, toda Olimpíada, toda Exposição Universal renova o mesmo credo. Povos diferentes se encontram. Bandeiras convivem pacificamente. A competição substitui a guerra. O talento ocupa o lugar da força. Durante algumas semanas, acredita-se que a humanidade conseguiu domesticar a própria natureza.
O curioso é que essa esperança sempre dura menos do que o torneio.
Enquanto milhares de pessoas discutiam impedimentos, probabilidades matemáticas e arbitragens controversas, navios eram atingidos no Estreito de Ormuz. Aviões caíam. Tiros ecoavam em cidades que se acostumaram a chamar a si mesmas de desenvolvidas. Encerrado o último jogo do Irã, a guerra retomou sua rotina com a disciplina de um funcionário público que apenas aguardava o intervalo do almoço.
A ilusão desaparece rápido porque jamais passou de uma pausa psicológica.
Costumo lembrar que uma das características mais persistentes da cultura ocidental consiste em imaginar que a história possui direção. Herdamos essa expectativa do cristianismo e apenas substituímos sua linguagem religiosa por um vocabulário secular. Onde antes existia a salvação, surgiu o progresso. Onde havia providência, instalou-se a tecnologia. O Juízo Final foi trocado pela democracia liberal, pela inteligência artificial ou por qualquer outro mito conveniente ao século.
O roteiro permanece idêntico. Sempre caminhamos para algum lugar. O problema consiste em que a experiência humana jamais confirmou essa narrativa.
As guerras mudam de uniforme. Os impérios trocam de nome. Os instrumentos tornam-se mais sofisticados. A criatura que aperta o gatilho continua surpreendentemente parecida com aquela que empunhava uma lança há quatro mil anos.
A diferença está na estética da violência.
Os gregos compreendiam isso melhor do que nós. Para eles, a tragédia nunca prometia um mundo reconciliado. Ésquilo escreveu Os Persas poucos anos depois da batalha de Salamina. Em vez de celebrar a superioridade grega, ofereceu ao público ateniense um retrato da dor do inimigo. A peça constitui talvez o primeiro grande monumento literário à inutilidade da vitória. Os vencedores descobrem que também pertencem ao império do sofrimento.
Essa percepção desapareceu da política contemporânea.
Hoje preferimos imaginar que cada conflito representa a batalha definitiva entre o bem e o mal. Mudam os protagonistas; preserva-se a estrutura moral. A Guerra Fria terminou. Surgiu a Guerra ao Terror. Esta perdeu centralidade. Vieram as guerras culturais. Depois, os conflitos híbridos. Em seguida, as disputas tecnológicas. A humanidade revela extraordinária criatividade para modificar o vocabulário. Seu repertório emocional permanece quase imóvel.
O futebol oferece um laboratório fascinante dessa condição.
Poucos eventos despertam sentimentos tribais com tanta intensidade. Camisas convertem-se em identidades. Derrotas adquirem estatuto de humilhações nacionais. Vitórias parecem corrigir injustiças históricas. Benedict Anderson observou que as nações são comunidades imaginadas. Durante uma Copa do Mundo, essa imaginação alcança seu estado mais puro. Milhões de indivíduos que jamais se encontrarão experimentam uma emoção comum diante da mesma tela.
Nada disso é falso.
Também não significa que o nacionalismo desapareça sob a fraternidade esportiva. Costuma acontecer justamente o contrário.
Carl Schmitt talvez enxergasse nesse espetáculo uma confirmação de sua velha tese sobre o político. A distinção entre amigo e inimigo não precisa de campos de batalha para existir. Basta que uma coletividade reconheça outra como adversária. O estádio fornece símbolos suficientes para alimentar essa necessidade ancestral.
Durante algumas semanas, a rivalidade parece inocente. Logo depois, ela reencontra seus instrumentos tradicionais. A situação do Irã torna essa dinâmica especialmente eloquente. Uma seleção nacional transforma-se, de repente, em extensão simbólica de um país sob ataque. Cada defesa do goleiro deixa de ser somente uma defesa. Cada gol anulado passa a carregar significados que escapam completamente ao regulamento esportivo. O impedimento pertence à narrativa nacional.
Pouco importa se houve erro humano, coincidência estatística ou manipulação.
As sociedades vivem de interpretações muito mais do que de fatos.
René Girard compreendeu isso quando descreveu a lógica sacrificial das comunidades humanas. Grupos inteiros organizam sua identidade mediante histórias compartilhadas sobre culpa, perseguição e redenção. A verdade objetiva ocupa papel secundário. Importa que o enredo seja capaz de produzir coesão.
Os iranianos talvez retornem para casa como heróis derrotados. Heróis derrotados costumam ser politicamente mais úteis do que vencedores. Roma conhecia esse mecanismo.
Também o conheciam os hebreus após a destruição do Segundo Templo. A Sérvia conheceu-o depois da batalha de Kosovo.
Cada civilização produz sua coleção de derrotas gloriosas.
A memória nacional raramente distingue entre aquilo que aconteceu e aquilo que precisava ter acontecido para sustentar determinada identidade coletiva.
Essa constatação incomoda porque desmonta uma das crenças favoritas do nosso tempo: a de que mais informação produzirá cidadãos mais racionais.
Nunca tivemos tantos dados. Jamais estivemos tão cercados por narrativas concorrentes. A abundância informacional não reduziu o conflito. Mas multiplicou suas versões.
Thomas Hobbes talvez sorrisse diante desse espetáculo. O filósofo inglês jamais acreditou que os homens fossem naturalmente inclinados à cooperação universal. A paz, para ele, exigia instituições suficientemente fortes para conter impulsos permanentes. Removido esse equilíbrio, retornava aquilo que sempre esteve presente.
A guerra. Meu ceticismo nasce justamente da recusa em tratar a violência como acidente histórico. Ela constitui um componente estrutural da espécie. Esperar sua eliminação equivale a esperar que os leopardos abandonem espontaneamente a caça por reconhecerem o sofrimento das gazelas.
A metáfora parece cruel. A história costuma ser mais cruel do que as metáforas.
Existe uma passagem pouco comentada de Freud em O mal-estar na civilização. Ali, ele descreve o ser humano como criatura incapaz de amar o próximo de forma espontânea. A agressividade antecede a fraternidade. A cultura só administra essa energia destrutiva sem jamais suprimi-la.
Talvez por isso as cerimônias esportivas exerçam tamanho fascínio.
Durante algumas horas, conseguimos acreditar que o antagonismo encontrou uma forma elegante de expressão. Os hinos substituem as marchas militares. As arquibancadas ocupam o lugar das trincheiras. O árbitro parece mais civilizado que o general.
Terminada a partida, os generais continuam existindo. Os árbitros voltam para casa. O restante pertence ao velho enredo humano.
Há quem veja nisso motivo para desespero.
O abandono das ilusões frequentemente representa um ganho intelectual. A esperança compulsória costuma produzir mais fanáticos do que a lucidez. Os grandes projetos de redenção nasceram quase sempre da convicção de que finalmente compreendemos o sentido da história. O século XX forneceu um catálogo suficientemente amplo de seus resultados.
Talvez a maturidade política comece justamente quando deixamos de esperar que algum evento — uma eleição, uma tecnologia revolucionária, um tratado internacional ou mesmo uma Copa do Mundo — transforme a condição humana.
Os acontecimentos importam. Os homens permanecem. O verão termina. O campeonato acaba. Os estádios esvaziam-se. Os drones substituem os refletores. Os mapas voltam às manchetes. Algum cronista escreverá sobre heroísmo. Algum estrategista falará em segurança nacional. Algum dirigente prometerá paz duradoura.
A história ouvirá tudo com a paciência de quem já escutou esse discurso milhares de vezes. Ela conhece um segredo que a modernidade insiste em esquecer. Os homens raramente interrompem a guerra. Costumam apenas marcar um jogo antes de retomá-la.
No fim da tarde deste domingo, acompanhei meu amigo Adenilson até a casa de José Luiz Fernandes. Estamos reunindo depoimentos para um documentário sobre Rogério Ferrari, desenvolvido pelo Centro de Estudos Euclides Neto. Adenilson fez a gentileza de construir essa primeira aproximação. Eu fiz aquilo que costuma acontecer quando encontro alguém generoso e disposto a conversar: ocupei um pedaço precioso do seu domingo.
Enquanto a luz ia se dissolvendo sobre a cidade, Zé Luiz recordava pessoas, lugares e acontecimentos, demonstrando uma memória amadurecida e calibrada pela vivência. Em determinado momento, a conversa tomou um rumo inesperado. Descobri que ele escreve contos.
Perguntei se já pensara em publicá-los.
Veio um sorriso discreto, seguido daquele gesto que conheço desde os tempos em que comecei a dar aula de escrita. O autor olha para o próprio trabalho com uma reserva quase constrangida. Sempre acredita que ainda falta alguma coisa. Mais uma leitura. Mais uma revisão. Mais alguns meses de amadurecimento.
Saí dali pensando menos no documentário e mais nessa hesitação.
Ao longo dos anos, percebi que uma parcela significativa dos textos permanece inédita por razões muito diferentes da falta de talento. A literatura está cheia de livros que jamais chegaram ao leitor porque seus autores permaneceram estacionados diante da própria exigência. O manuscrito envelhece na gaveta enquanto o escritor espera alcançar uma perfeição cuja natureza sequer consegue definir.
A imagem do escritor perfeccionista exerce um fascínio antigo. Parte dela foi construída pela figura de Gustave Flaubert, cuja busca obsessiva pelo mot juste atravessou gerações como uma espécie de mandamento estético. A anedota do autor que passava dias perseguindo uma única frase transformou-se em paradigma de excelência literária. O curioso é que muitos escritores herdaram o ritual sem herdar a obra. Apropriaram-se da obsessão e esqueceram que Flaubert terminava os livros.
Pierre Bourdieu observa, em As regras da arte, que toda prática cultural desenvolve mecanismos próprios de legitimação. A literatura também construiu os seus. O sofrimento da escrita passou a funcionar como uma credencial simbólica. Quanto maior o tormento, maior pareceria o compromisso com a arte. A consequência dessa lógica aparece com frequência nas oficinas literárias: autores convencidos de que interromper continuamente o fluxo da escrita representa uma demonstração de rigor intelectual.
Talvez a questão pertença ao campo da temporalidade.
Todo texto atravessa fases distintas. Confundi-las produz um efeito semelhante ao do jardineiro que resolve podar uma árvore antes do surgimento dos primeiros galhos. A poda possui sua sabedoria. A semente também.
A escrita nasce num terreno muito próximo daquele que Donald Winnicott descreve como espaço potencial. Antes da forma definitiva, existe uma região intermediária onde a imaginação experimenta possibilidades, estabelece associações improváveis, testa ritmos, cria imagens cuja utilidade só se revelará páginas adiante. Exigir acabamento nessa etapa equivale a interromper um processo cuja riqueza depende justamente da liberdade de experimentar.
Roland Barthes escreveu que o texto constitui um tecido. A metáfora costuma receber pouca atenção. Um tecido jamais aparece pronto. Cada fio encontra outro, cruza caminhos, produz tensões, ganha espessura. Quem observa apenas o resultado esquece o trabalho paciente do entrelaçamento. Com a literatura acontece algo semelhante. O leitor encontra um texto aparentemente contínuo. O escritor conviveu com uma sucessão de aproximações, desvios, cortes e recomposições.
Talvez por isso tantas pessoas alimentem expectativas irreais sobre o próprio processo criativo. O romance chega às livrarias como objeto concluído. A oficina desaparece sob a elegância da versão final. Permanecem invisíveis as páginas descartadas, os capítulos reescritos, as imagens sacrificadas durante a revisão. A aparência de espontaneidade costuma ser fruto de um enorme esforço de depuração.
Antonio Candido lembrava que a forma literária organiza a experiência humana. A observação possui implicações profundas para quem escreve. A organização vem depois da experiência. Primeiro existe a matéria dispersa da percepção. Em seguida, o trabalho paciente de conferir ordem ao que parecia fragmento. Esperar que o pensamento já surja perfeitamente estruturado significa atribuir à consciência uma capacidade que ela simplesmente não possui.
Essa talvez seja uma das maiores ilusões da escrita.
O pensamento amadurece enquanto encontra linguagem.
Mikhail Bakhtin insistia que toda palavra responde a palavras anteriores e prepara respostas futuras. O texto constitui um processo dialógico desde o instante em que começa a existir. Escrever significa conversar com leituras antigas, memórias, vozes familiares, referências culturais e experiências pessoais. Essa conversa produz desvios, hesitações e descobertas. Cada parágrafo amplia o horizonte do seguinte. Muitas vezes a conclusão esclarece aquilo que permanecia obscuro na abertura. A lógica da escrita segue um movimento de descoberta muito mais do que de execução.
Durante anos ouvi alunos pedindo desculpas antes mesmo de entregar um texto. O pedido quase sempre vinha acompanhado de uma justificativa: "Ainda está cru."
A palavra sempre me chamou atenção.
Cru.
Existe enorme sabedoria escondida nessa escolha vocabular. Aquilo que está cru pede fogo, tempo e transformação. Ninguém espera encontrar sabor definitivo nos ingredientes espalhados sobre a bancada da cozinha. O cozinheiro compreende intuitivamente que a receita atravessa estágios. O escritor, por razões difíceis de explicar, costuma desejar que sua primeira versão já carregue o refinamento de uma obra publicada.
Um manuscrito funciona como matéria-prima. A escrita crítica entra em cena quando essa matéria já possui alguma consistência. A partir daí, cada leitura revela excessos, identifica repetições, elimina passagens ornamentais, aproxima o texto de sua verdadeira necessidade expressiva. Ítalo Calvino observava que a leveza literária nasce de um longo processo de subtração. O peso costuma aparecer primeiro.
A revisão representa um exercício de desapego.
Cada corte exige do autor a capacidade de abandonar frases pelas quais desenvolveu certo afeto. A experiência ensina que algumas das melhores páginas surgem justamente depois das exclusões mais dolorosas. Ricardo Piglia dizia que escrever consiste em contar uma história enquanto outra permanece escondida sob a superfície. A revisão ajuda o escritor a descobrir qual delas realmente merece permanecer.
Percebo, às vezes, um orgulho curioso entre escritores. Alguns exibem velocidade como certificado de talento. Outros transformam a lentidão em demonstração de profundidade intelectual. As duas posturas pertencem mais ao campo da vaidade do que ao da literatura. Cada texto estabelece seu próprio ritmo. Alguns atravessam o autor como uma enxurrada. Outros avançam lentamente, exigindo meses de convivência. A qualidade costuma surgir da relação entre invenção e lapidação, jamais da duração do processo.
Voltei da casa de José Luiz pensando em quantas histórias continuam esperando pelo momento em que seus autores lhes concedam existência pública. Cada manuscrito guardado carrega um pequeno conflito entre o desejo de comunicar e o receio do julgamento. A literatura brasileira talvez esconda uma biblioteca inteira composta por livros que jamais ultrapassaram a porta de uma gaveta.
José Luiz talvez publique seus contos. Talvez espere mais algum tempo. A decisão pertence exclusivamente a ele. A conversa daquele fim de tarde, contudo, trouxe de volta uma convicção que me acompanha desde os primeiros anos como professor.
A escrita pede coragem em dois momentos distintos.
Primeiro, quando o autor aceita caminhar por um território onde as ideias ainda procuram sua forma.
Depois, quando retorna ao texto com a serenidade de quem compreende que toda grande literatura nasce da paciência silenciosa de quem aprende a ouvir aquilo que o próprio texto começou a dizer.
É só aí que a escrita deixa de ser um impulso individual para se transformar em literatura.
Ainda morava em São Paulo quando descobri que algumas das melhores bibliotecas do mundo funcionam ao ar livre, debaixo de árvores, entre bancos de praça, mesas de cimento e copos de café morno. Uma delas ficava na Praça Lituânia, diante da Igreja São José. Ali, quase todas as tardes, alguns velhos se reuniam para jogar dominó. As pedras batiam sobre a mesa com uma violência que parecia desproporcional ao jogo. Bastava permanecer alguns minutos por perto para perceber que o dominó era um pretexto. O verdadeiro espetáculo acontecia na conversa.
Nunca fui atraído pelo jogo em si. O que me prendia era a linguagem. As frases interrompidas pela gargalhada. Os xingamentos que encerravam uma filosofia sobre o país. As lembranças de um prefeito antigo, de uma enchente esquecida, de um filho que havia ido embora, de um preço que já não existia. Cada partida constituía uma pequena assembleia popular, sem ata, sem protocolo, sem qualquer pretensão de produzir teoria. Era possível aprender muito sobre sociologia apenas observando.
Eu costumava voltar para casa carregando anotações mentais. Algumas nunca chegaram ao papel. Outras reapareceram anos depois, disfarçadas em personagens, diálogos ou pequenas observações espalhadas pelos meus textos. Foi ali que compreendi que escrever exige menos imaginação que presença. A literatura nasce de quem aprende a permanecer tempo suficiente diante da realidade até que ela resolva falar.
Desde então passei a cultivar um hábito que meus amigos classificam como extravagância. Gosto de me colocar em situações capazes de produzir histórias. Viajei da Bahia para São Paulo (e voltei) na boleia de um caminhão apenas para experimentar um pedaço do mundo que desconhecia. Cruzei estradas intermináveis ouvindo relatos de motoristas que sabiam mais sobre economia brasileira do que muitos comentaristas de televisão. Passei um fim de semana em Inhambupe hospedado numa pousada tão pequena que o cheiro permanente de sabão de coco parecia fazer parte da mobília. O chuveiro derramava água durante toda a madrugada, como se alguém tivesse esquecido de fechar completamente o registro décadas antes. Dormi mal. Voltei feliz. Algumas experiências devolvem mais do que conforto.
Escrever sempre me pareceu um exercício de acumulação. Poucos percebem que essa acumulação raramente é financeira. Pierre Bourdieu talvez utilizasse outra terminologia, embora estivesse falando da mesma matéria-prima. Aquilo que ele chamou de capital cultural dificilmente se limita aos diplomas pendurados numa parede ou ao número de livros lidos. Existe um capital cultural incorporado, sedimentado lentamente no corpo, nos gestos, na linguagem, na maneira de perceber o mundo. Ele cresce de forma quase invisível. Cada conversa ouvida numa praça, cada viagem aparentemente inútil, cada feira de cidade pequena, cada encontro casual acrescenta alguma camada a esse patrimônio silencioso.
Esse tipo de riqueza não aparece no extrato bancário. Raramente impressiona quem observa de fora. Sua força se revela quando alguém precisa interpretar uma situação complexa sem recorrer aos lugares-comuns. O olhar treinado pela experiência distingue nuances que passam despercebidas para quem conhece apenas os conceitos.
Bourdieu insistia que os diferentes capitais circulam dentro de um campo, espaço permanente de disputas em torno do reconhecimento, da autoridade e da legitimidade. Costuma-se imaginar que o campo cultural seja um território governado exclusivamente pela sensibilidade artística. A realidade é muito menos romântica. Cada prêmio, cada edital, cada festival, cada feira literária representa uma negociação constante entre interesses diversos, recursos escassos, prestígio, alianças institucionais e disputas simbólicas. O livro ocupa apenas uma parte desse universo. Em torno dele gravitam relações políticas, administrativas e econômicas que determinam, muitas vezes, quem será ouvido e quem permanecerá invisível.
Essa percepção voltou à minha memória durante a segunda edição da Feira Literária de Ipiaú (FLIPIAÚ), realizada entre os dias 17 e 19 de junho. Participei da organização da programação de lançamentos de livros e conduzi uma oficina dedicada à produção independente. Carregava comigo uma expectativa simples. Imaginava encontrar um ambiente em que a literatura ocupasse naturalmente o centro das atenções. A experiência mostrou algo mais complexo.
Costuma existir uma diferença profunda entre organizar um evento cultural e apenas comparecer a ele. O visitante contempla o resultado final. Quem trabalha nos bastidores conhece o peso das decisões improvisadas, das limitações financeiras, das ausências institucionais e das soluções encontradas poucos minutos antes de cada atividade começar. Descobre que quase nenhum grande evento nasce em condições ideais. Quase todos sobrevivem graças à criatividade de pessoas que aprenderam a transformar escassez em possibilidade.
Foi essa impressão que tive durante aqueles dias.
Edson e Henrique, responsáveis pela Voo Audiovisual, demonstraram uma capacidade admirável de mobilização. Silvia Clícia, à frente da Casa da Cultura, carregava consigo uma experiência acumulada ao longo de alguma experiência na atuação cultural. Havia ali um compromisso genuíno com a permanência da feira, compromisso que se tornava visível nas pequenas decisões tomadas diariamente.
Esse detalhe merece atenção porque costuma passar despercebido. Bourdieu descreve o capital social como o conjunto de relações capazes de produzir cooperação e confiança entre indivíduos e instituições. Em regiões onde o investimento público em cultura permanece irregular, esse capital social frequentemente substitui estruturas que deveriam existir de maneira permanente. Amigos tornam-se patrocinadores improvisados. Voluntários assumem funções que pertenceriam a equipes profissionais. Instituições comunitárias passam a desempenhar tarefas normalmente atribuídas ao Estado.
Toda essa engrenagem funciona porque existe uma rede de pessoas dispostas a oferecer tempo, conhecimento e prestígio sem qualquer garantia de retorno material (apesar da esperança existir, que fique claro).
O problema aparece quando essa lógica deixa de ser excepcional e passa a constituir a regra.
Uma sociedade que depende exclusivamente da boa vontade de seus agentes culturais revela algo profundamente preocupante sobre a forma como compreende a própria cultura. Ela deixa de tratá-la como política pública para transformá-la numa sucessão de heroísmos individuais.
Em determinado momento, os lançamentos de livros aconteciam numa sala ao lado do palco principal. Enquanto autores apresentavam anos de pesquisa, memória e trabalho intelectual, o som das atrações externas atravessava paredes, interrompia falas e competia diretamente com a palavra escrita. A cena possuía algo de simbólico. Nenhuma pessoa havia planejado desvalorizar os livros. O próprio desenho do evento refletia limitações estruturais muito anteriores à sua realização.
O que se via durante aqueles dias era a manifestação concreta de uma deficiência acumulada ao longo de décadas. Feiras literárias costumam ser analisadas pelo público a partir da programação, do número de convidados ou da qualidade das atrações. Quem participa da organização aprende rapidamente que o verdadeiro evento começa muitos meses antes da abertura oficial. Ele acontece nas reuniões em que se procura um patrocinador disposto a acreditar no projeto, nas tentativas de convencer gestores públicos de que literatura não representa um gasto supérfluo, nas ligações telefônicas que substituem departamentos inteiros inexistentes, nas planilhas refeitas sucessivas vezes para acomodar recursos que chegam sempre menores do que o necessário.
Existe uma tendência curiosa no Brasil. Celebramos a cultura depois que ela sobrevive. O aplauso costuma aparecer quando o espetáculo já aconteceu, quando o livro já foi lançado, quando o músico já encontrou um palco, quando a feira já reuniu seu público. Pouco se fala sobre o percurso anterior, justamente o trecho mais difícil. É nele que se decide se um projeto continuará existindo ou desaparecerá sem deixar vestígios.
Bourdieu observava que os campos sociais jamais funcionam apenas pela circulação de dinheiro. Cada campo estabelece critérios próprios para reconhecer quem possui autoridade. No universo literário, esse reconhecimento nasce do acúmulo de capital simbólico: prestígio, credibilidade, reputação intelectual, reconhecimento dos pares. Um escritor pode vender pouco e ainda ocupar uma posição central dentro de determinado campo. Um pesquisador pode viver distante dos holofotes e exercer enorme influência sobre gerações inteiras. Uma pequena casa de cultura pode representar muito mais para uma comunidade do que instituições dotadas de orçamentos infinitamente superiores.
O Estado, porém, costuma operar segundo outra lógica.
A administração pública frequentemente reduz a cultura a indicadores quantitativos. Conta-se o número de visitantes, calcula-se o impacto financeiro, registram-se fotografias para divulgação institucional. O que permanece invisível raramente entra na contabilidade. Ninguém consegue medir com facilidade o adolescente que descobre um escritor pela primeira vez durante uma feira literária. Tampouco existe planilha capaz de registrar o nascimento silencioso de um leitor. O encontro entre um autor e uma criança dificilmente produzirá resultados imediatos. Seu efeito aparece muitos anos depois, quando aquela criança escreve um livro, escolhe uma profissão ou simplesmente desenvolve outra relação com a linguagem.
Antonio Candido compreendeu isso de maneira admirável ao afirmar que a literatura participa da própria constituição da experiência humana. Ela organiza sensibilidades, amplia a capacidade de imaginar o outro, produz formas de convivência que antecedem qualquer cálculo econômico. Uma sociedade que restringe o acesso à literatura empobrece muito antes que perceba esse empobrecimento.
Esse aspecto costuma desaparecer quando a cultura passa a ser administrada exclusivamente pela lógica da urgência administrativa. Recursos chegam em cima da hora. Editais atrasam. Planejamentos precisam ser refeitos continuamente. Equipes trabalham sem qualquer garantia de continuidade. Cada evento parece começar do zero, como se toda experiência acumulada no ano anterior tivesse sido apagada.
A consequência ultrapassa o desgaste físico.
Ela impede justamente aquilo que Bourdieu chamaria de acumulação institucional de capital. Instituições sólidas crescem porque conseguem transformar experiência em memória organizacional. Aprendem com os próprios erros. Estabelecem redes permanentes. Formam equipes técnicas. Criam rotinas administrativas. Desenvolvem confiança entre parceiros. Tudo isso exige estabilidade.
Quando cada edição de uma feira depende novamente de convencer patrocinadores, negociar recursos mínimos e reconstruir alianças elementares, grande parte da energia deixa de ser investida na qualidade da programação para ser consumida pela simples sobrevivência do projeto.
Foi impossível não recordar minha participação na FestContas, realizada no ano anterior. Embora fossem iniciativas diferentes, existia entre elas uma semelhança profunda. Em ambas encontrei pessoas trabalhando muito acima das condições materiais disponíveis. Havia competência. Havia disposição. Havia conhecimento técnico. Faltava aquilo que deveria ser oferecido pelas estruturas públicas responsáveis pela promoção cultural.
Essa distinção merece cuidado.
Seria injusto transformar organizadores em alvo de críticas produzidas pela ausência histórica de políticas consistentes. Quem observa apenas o resultado final pode imaginar falhas de planejamento onde, muitas vezes, existe apenas excesso de responsabilidade concentrada sobre poucas pessoas. Uma equipe reduzida termina assumindo funções que normalmente seriam distribuídas entre dezenas de profissionais especializados.
Os agentes culturais passaram a desenvolver uma extraordinária capacidade de improvisação. Resolver problemas tornou-se parte do próprio ofício. Descobrir parceiros, adaptar espaços, reconstruir cronogramas, reorganizar equipes, negociar equipamentos, acomodar limitações técnicas. Tudo isso passou a parecer natural.
Talvez justamente aí resida o maior perigo.
Uma sociedade acostumada ao improviso começa a confundir precariedade com virtude.
Passa a elogiar a criatividade necessária para superar obstáculos cuja existência jamais deveria ser aceita.
Quando um professor compra material didático com recursos próprios, recebe elogios pela dedicação. Quando artistas financiam a própria circulação, tornam-se exemplos de perseverança. Quando produtores culturais realizam eventos inteiros sustentados por redes de amizade, aplaude-se a capacidade de mobilização comunitária.
O elogio contém uma armadilha silenciosa.
Ele desloca a responsabilidade.
Aquilo que deveria provocar indignação coletiva converte-se em narrativa de superação individual.
Poucos mecanismos políticos são tão eficientes quanto esse. Enquanto todos celebram os heróis da resistência cotidiana, desaparece a pergunta essencial: por que a resistência continua sendo necessária?
Bourdieu descreveu o poder simbólico como a capacidade de fazer determinadas estruturas parecerem naturais, inevitáveis, quase invisíveis. Talvez uma de suas maiores contribuições tenha sido justamente revelar que a dominação raramente depende apenas da força. Ela se perpetua quando aprendemos a considerar normal aquilo que nasceu profundamente desigual.
Durante muito tempo o Brasil aprendeu a tratar cultura exatamente dessa maneira. Aceitou como inevitável que bibliotecas funcionassem com acervos insuficientes. Aceitou que casas de cultura sobrevivessem graças ao voluntariado.
Aceitou que escritores percorressem centenas de quilômetros às próprias custas para participar de encontros literários. Aceitou que produtores culturais transformassem cada evento numa corrida permanente contra a escassez. Aceitou tanto essa lógica que passou a enxergar heroísmo onde deveria enxergar abandono.
Existe uma imagem que me acompanha desde o encerramento da feira.
Ela não está relacionada a um escritor famoso, a uma palestra concorrida ou a uma fotografia bonita destinada às redes sociais. A lembrança que permaneceu foi a de pessoas desmontando estruturas quando o público já havia ido embora. Caixas sendo fechadas. Cabos enrolados. Livros recolhidos cuidadosamente. Cadeiras empilhadas. Alguns rostos exibiam o cansaço de quem havia atravessado três dias praticamente sem descansar. Ainda assim, entre uma tarefa e outra, surgia uma piada, uma risada breve, um comentário sobre a próxima edição, como se o corpo se recusasse a acompanhar o esgotamento da alma.
A feira literária continua existindo dentro de quem trabalhou para que tudo acontecesse. Continua nos vínculos construídos entre autores que não se conheciam. Continua na criança que levou para casa um livro comprado com o dinheiro economizado da merenda. Continua no professor que descobriu um título capaz de transformar uma aula inteira. Continua no escritor que voltou para casa convencido de que ainda vale a pena insistir na literatura.
O capital simbólico, ainda falando do Bourdieu, possui uma característica singular: ele só produz efeitos quando é reconhecido coletivamente. Um prêmio vale porque uma comunidade lhe atribui valor. Um diploma vale porque existe uma instituição que lhe confere legitimidade. Um escritor passa a ocupar determinada posição porque um conjunto de leitores, críticos, universidades e instituições culturais reconhece sua importância.
O mesmo princípio vale para uma feira literária.
Seu verdadeiro patrimônio jamais será medido pela quantidade de cadeiras ocupadas ou pelo volume de exemplares vendidos durante três dias. Seu maior patrimônio consiste na confiança construída entre pessoas que passam a acreditar que aquele espaço merece existir novamente. Essa confiança é um ativo político. Ela aproxima escolas, universidades, artistas, leitores, editoras, comerciantes e instituições. Ela produz uma rede de reciprocidade que dificilmente nasce por decreto.
O problema aparece quando essa rede cresce praticamente sozinha.
Uma comunidade pode produzir capital social com enorme competência. Pode formar leitores, organizar eventos, criar coletivos, manter bibliotecas vivas, estimular escritores iniciantes. Há inúmeros exemplos espalhados pelo interior do Brasil. O esforço comunitário encontra um limite muito claro: ele não substitui o dever do Estado.
Essa afirmação costuma incomodar porque fomos educados a enxergar qualquer reivindicação por políticas públicas como simples pedido de recursos financeiros. A questão nunca foi essa.
Recursos são instrumentos.
Política pública é permanência.
Uma administração comprometida com a cultura compreende que cada feira literária representa apenas a parte visível de um ecossistema muito maior. Antes dela existem escolas, bibliotecas, mediadores de leitura, editoras independentes, professores, pesquisadores, escritores, livrarias, arquivos, grupos de teatro, músicos, artesãos, fotógrafos, cineastas. Cada um desses agentes ocupa uma posição específica dentro do campo cultural. Quando um deles desaparece, todo o restante sente o impacto.
Bourdieu insistia que nenhum campo permanece estável quando seus agentes deixam de acreditar no próprio jogo. Chamava essa adesão de illusio: a disposição coletiva para investir tempo, energia e inteligência porque se acredita que aquela disputa possui sentido.
Passei boa parte da feira pensando justamente nisso.
O que faz alguém dedicar meses de trabalho a um evento cultural sabendo que o reconhecimento será pequeno, o desgaste enorme e as dificuldades previsíveis?
Certamente não é o retorno financeiro.
Também não é a expectativa de prestígio.
Existe algo mais profundo.
É a convicção de que certos espaços precisam continuar existindo.
Essa convicção explica por que professores permanecem ensinando literatura em escolas que mal possuem biblioteca. Explica por que escritores continuam escrevendo mesmo sabendo que a tiragem dificilmente ultrapassará algumas centenas de exemplares. Explica por que pequenas casas de cultura sobrevivem durante décadas sustentadas muito mais pela obstinação de seus membros do que pela estabilidade institucional.
Toda sociedade depende de pessoas assim.
Toda sociedade também corre um risco enorme quando passa a depender exclusivamente delas.
Porque chega um momento em que o entusiasmo encontra o próprio limite.
O corpo cansa.
Os voluntários envelhecem.
As lideranças adoecem.
As redes de amizade se fragmentam.
O improviso, por mais criativo que seja, possui prazo de validade.
É nesse ponto que o poder público deveria entrar em cena.
Seu papel consiste em criar condições para que a cultura deixe de depender permanentemente do sacrifício pessoal de quem a produz.
Infelizmente, grande parte das administrações brasileiras parece compreender a cultura apenas como calendário festivo. Inauguram-se eventos com discursos generosos, multiplicam-se fotografias oficiais, distribuem-se cumprimentos, anunciam-se números impressionantes. Dias depois, o silêncio volta a ocupar o lugar onde antes havia literatura.
Esse comportamento produz uma perversidade difícil de perceber. Ele transforma a exceção em rotina. Cada nova feira passa a parecer um milagre. Cada novo festival assume a aparência de um ato heroico. Cada biblioteca inaugurada converte-se em acontecimento extraordinário. Milagres possuem uma característica curiosa. Ninguém constrói políticas públicas esperando por eles.
A cultura tampouco pode sobreviver dessa maneira. Ela exige continuidade. Exige planejamento. Exige memória institucional. Exige investimento constante. Exige respeito.
Sobretudo respeito.
Durante muito tempo ouvi dizer que cidades pequenas precisavam escolher entre investir em infraestrutura ou em cultura, como se ambas ocupassem lados opostos de uma mesma balança. Sempre me pareceu uma falsa escolha. Uma cidade se torna verdadeiramente desenvolvida quando consegue produzir estradas que conduzem pessoas aos livros e livros que ensinam por que vale a pena construir estradas.
Sem leitores, o progresso aprende apenas a contar dinheiro. Sem cultura, a prosperidade perde a capacidade de produzir sentido. Ao deixar a feira, lembrei-me daqueles velhos da Praça Lituânia.
Nenhum deles conhecia Pierre Bourdieu.
Poucos teriam paciência para discutir capital simbólico, habitus ou estrutura dos campos sociais. Ainda assim, todos sabiam distinguir uma comunidade viva de uma comunidade abandonada.
Eles entendiam, com a sabedoria que costuma escapar aos gabinetes, que uma cidade começa a morrer quando suas histórias deixam de circular.
Uma feira literária existe justamente para impedir essa morte. Ela reúne escritores para que a memória continue respirando. Ela aproxima leitores para que a linguagem permaneça fértil. Ela oferece livros para que o futuro encontre alguma matéria-prima. Toda vez que um evento dessa natureza precisa lutar quase sozinho pela própria existência, a derrota pertence muito menos aos seus organizadores do que às instituições que deveriam assegurar sua continuidade.
Edson, Henrique, Silvia Clícia e tantos outros cumpriram aquilo que lhes cabia. Fizeram mais do que lhes cabia, na verdade. Entregaram trabalho, inteligência, sensibilidade e uma quantidade de energia impossível de medir. O mérito da feira lhes pertence integralmente.
Investir em cultura significa disputar o imaginário de uma sociedade. Significa decidir se uma geração crescerá cercada apenas por consumo ou também por pensamento. Significa escolher entre administrar cidadãos ou formar consciências.
E consciências, uma vez despertas, jamais voltam a dormir.
Talvez seja exatamente por isso que a literatura continue sendo tão necessária. Ela possui o estranho hábito de fazer uma cidade enxergar aquilo que durante anos fingiu não ver.
Até o dia em que alguém fecha um livro, levanta os olhos e finalmente entende que a maior pobreza nunca foi a falta de dinheiro. Sempre foi a falta de coragem para reconhecer o valor da própria cultura antes que restasse apenas o silêncio.
Alguns encontros parecem desperdiçados enquanto acontecem. Anos depois, descobrimos que eram justamente eles que moldavam uma vida.
A cada semestre faço uma aposta.
Escolho um aluno ou uma aluna para acompanhar de perto durante algum tempo. Converso pelos corredores, observo as leituras, procuro descobrir aquilo que desperta entusiasmo. Às vezes surge a oportunidade de orientar um projeto; em outras ocasiões basta uma conversa longa na cozinha. Meu objetivo costuma ser o mesmo: incentivar essa pessoa a escrever um livro, produzir um documentário, criar um programa de rádio ou transformar uma boa ideia em projeto de mestrado.
Nunca encontrei um critério realmente seguro para essa escolha.
Há estudantes que despertam enorme expectativa e desaparecem poucos meses depois da formatura. Outros descobrem interesses completamente diferentes dos meus. Alguns preferem seguir o caminho indicado por outro professor. A vida universitária também possui suas distâncias, seus desencontros e seus silêncios.
Ainda assim continuo escolhendo alguém.
Talvez exista uma dose considerável de vaidade nisso. George Steiner observava que ensinar significa, antes de tudo, assumir responsabilidade pelo futuro intelectual de outra pessoa. Gosto de imaginar que, em alguma medida, participei da formação de alguns alunos. Ignoro se isso aconteceu de fato. Certas ilusões cumprem uma função semelhante à da esperança: permitem que continuemos fazendo amanhã aquilo que a experiência recomendaria abandonar.
Hoje, aproveitando o feriado de São João, resolvi procurar Aldair e May, dois estudantes de Letras do Campus XXI da UNEB.
Aldair - aluno que acaba de lançar um livro sob minha orientação - já estava entregue aos festejos juninos e ficou para outra oportunidade. May aceitou meu convite para tomar um açaí na Praça Ruy Barbosa.
Passei antes pela Casa dos Estudantes, onde vivem muitos alunos vindos de outras cidades. Fui na minha velha cinquentinha, essa bicicleta motorizada que insisto em tratar como motocicleta. Diogo e Raquel apareceram na janela quando passei por lá. Seguimos então para a casa de Vicente, onde costumo deixar a moto antes de descer até a praça.
Vicente preparava um bolo.
Disse que o forno ainda precisava de mais alguns minutos e resolveu que nos encontraria tão logo a massa terminasse de assar.
Sentamos debaixo de uma árvore. Eu pretendia descobrir um pouco mais sobre os interesses de May. Sempre acredito que existe um instante decisivo na vida de quase todo estudante: aquele momento em que alguém leva seus sonhos a sério antes mesmo que ele próprio consiga fazê-lo.
Foi quando um carro branco passou lentamente pela praça.
Quem acenava era Adenilson, embora quase ninguém o chame por esse nome. Para todos continua sendo Chita - esse é, provavelmente, algum apelido racista que ele recebeu em décadas passadas.
Ele estacionou, sentou-se ao nosso lado e entrou na conversa como fazem os velhos amigos que dispensam apresentações. Liguei para Vicente, depois de muita demora, avisando que Chita estava conosco. Ele ainda aguardava o bolo assar. Demorou um pouco, mas juntou-se a nós.
Pouco depois apareceu Charles, uma dessas figuras improváveis que toda cidade pequena produz e conserva com carinho. A conversa rapidamente perdeu qualquer direção. Literatura, política, histórias da universidade, causos antigos, piadas privadas e lembranças de gente que já morreu começaram a disputar espaço ao mesmo tempo.
Olhei algumas vezes para May.
Imaginei que aquela sucessão de personagens e assuntos devesse parecer um encontro de excêntricos.
Talvez fosse exatamente isso.
As universidades costumam ser lembradas pelas aulas, pelos congressos e pelas bibliotecas. Tenho a impressão de que sua verdadeira alma circula nesses encontros improvisados, onde ninguém pretende ensinar coisa alguma e, ainda assim, todos aprendem alguma coisa. Michael Oakeshott dizia que educar consiste em inserir alguém numa grande conversa iniciada muito antes do nosso nascimento. Talvez aquela tarde representasse precisamente isso: uma conversa sem pauta, sem método e sem qualquer compromisso com a eficiência.
Em determinado momento brinquei que conseguia sentir, dali mesmo, o cheiro do bolo que Vicente deixara no forno.
Voltamos a sua casa.
O aroma realmente havia tomado conta da cozinha.
Vicente serviu May de um pedaço do seu bolo. Aparentemente estava intragável, mas ela não reclamou. Preferi ficar olhando os dois enquanto continuávamos conversando.
Na volta para casa, depois de levar May de volta, pensei que minha intenção inicial havia ficado pelo caminho.
Depois me ocorreu que talvez tivesse acontecido exatamente o contrário.
A formação de alguém raramente depende de uma grande lição. Ela costuma avançar em pequenos episódios cuja importância só se revela muitos anos depois. Um professor imagina estar oferecendo orientação; o aluno guarda uma conversa, um gesto de confiança, uma tarde qualquer que permaneceu viva na memória quando quase todo o resto já desapareceu.
Continuo escolhendo um estudante a cada semestre porque algumas apostas desafiam qualquer cálculo. A experiência ensina prudência, reduz expectativas e torna o entusiasmo cada vez mais raro. Mesmo assim, basta encontrar uma pessoa realmente disposta a transformar inquietação em trabalho para que todo o ceticismo recue alguns passos. Talvez a esperança nunca tenha sido uma convicção. Sempre me pareceu mais próxima de um hábito. E certos hábitos merecem sobreviver, sobretudo quando o mundo oferece tantos motivos para abandoná-los.
A cada semestre faço uma aposta.
Escolho um aluno ou uma aluna para acompanhar de perto durante algum tempo. Converso pelos corredores, observo as leituras, procuro descobrir aquilo que desperta entusiasmo. Às vezes surge a oportunidade de orientar um projeto; em outras ocasiões basta uma conversa longa na cozinha. Meu objetivo costuma ser o mesmo: incentivar essa pessoa a escrever um livro, produzir um documentário, criar um programa de rádio ou transformar uma boa ideia em projeto de mestrado.
Nunca encontrei um critério realmente seguro para essa escolha.
Há estudantes que despertam enorme expectativa e desaparecem poucos meses depois da formatura. Outros descobrem interesses completamente diferentes dos meus. Alguns preferem seguir o caminho indicado por outro professor. A vida universitária também possui suas distâncias, seus desencontros e seus silêncios.
Ainda assim continuo escolhendo alguém.
Talvez exista uma dose considerável de vaidade nisso. George Steiner observava que ensinar significa, antes de tudo, assumir responsabilidade pelo futuro intelectual de outra pessoa. Gosto de imaginar que, em alguma medida, participei da formação de alguns alunos. Ignoro se isso aconteceu de fato. Certas ilusões cumprem uma função semelhante à da esperança: permitem que continuemos fazendo amanhã aquilo que a experiência recomendaria abandonar.
Hoje, aproveitando o feriado de São João, resolvi procurar Aldair e May, dois estudantes de Letras do Campus XXI da UNEB.
Aldair - aluno que acaba de lançar um livro sob minha orientação - já estava entregue aos festejos juninos e ficou para outra oportunidade. May aceitou meu convite para tomar um açaí na Praça Ruy Barbosa.
Passei antes pela Casa dos Estudantes, onde vivem muitos alunos vindos de outras cidades. Fui na minha velha cinquentinha, essa bicicleta motorizada que insisto em tratar como motocicleta. Diogo e Raquel apareceram na janela quando passei por lá. Seguimos então para a casa de Vicente, onde costumo deixar a moto antes de descer até a praça.
Vicente preparava um bolo.
Disse que o forno ainda precisava de mais alguns minutos e resolveu que nos encontraria tão logo a massa terminasse de assar.
Sentamos debaixo de uma árvore. Eu pretendia descobrir um pouco mais sobre os interesses de May. Sempre acredito que existe um instante decisivo na vida de quase todo estudante: aquele momento em que alguém leva seus sonhos a sério antes mesmo que ele próprio consiga fazê-lo.
Foi quando um carro branco passou lentamente pela praça.
Quem acenava era Adenilson, embora quase ninguém o chame por esse nome. Para todos continua sendo Chita - esse é, provavelmente, algum apelido racista que ele recebeu em décadas passadas.
Ele estacionou, sentou-se ao nosso lado e entrou na conversa como fazem os velhos amigos que dispensam apresentações. Liguei para Vicente, depois de muita demora, avisando que Chita estava conosco. Ele ainda aguardava o bolo assar. Demorou um pouco, mas juntou-se a nós.
Pouco depois apareceu Charles, uma dessas figuras improváveis que toda cidade pequena produz e conserva com carinho. A conversa rapidamente perdeu qualquer direção. Literatura, política, histórias da universidade, causos antigos, piadas privadas e lembranças de gente que já morreu começaram a disputar espaço ao mesmo tempo.
Olhei algumas vezes para May.
Imaginei que aquela sucessão de personagens e assuntos devesse parecer um encontro de excêntricos.
Talvez fosse exatamente isso.
As universidades costumam ser lembradas pelas aulas, pelos congressos e pelas bibliotecas. Tenho a impressão de que sua verdadeira alma circula nesses encontros improvisados, onde ninguém pretende ensinar coisa alguma e, ainda assim, todos aprendem alguma coisa. Michael Oakeshott dizia que educar consiste em inserir alguém numa grande conversa iniciada muito antes do nosso nascimento. Talvez aquela tarde representasse precisamente isso: uma conversa sem pauta, sem método e sem qualquer compromisso com a eficiência.
Em determinado momento brinquei que conseguia sentir, dali mesmo, o cheiro do bolo que Vicente deixara no forno.
Voltamos a sua casa.
O aroma realmente havia tomado conta da cozinha.
Vicente serviu May de um pedaço do seu bolo. Aparentemente estava intragável, mas ela não reclamou. Preferi ficar olhando os dois enquanto continuávamos conversando.
Na volta para casa, depois de levar May de volta, pensei que minha intenção inicial havia ficado pelo caminho.
Depois me ocorreu que talvez tivesse acontecido exatamente o contrário.
A formação de alguém raramente depende de uma grande lição. Ela costuma avançar em pequenos episódios cuja importância só se revela muitos anos depois. Um professor imagina estar oferecendo orientação; o aluno guarda uma conversa, um gesto de confiança, uma tarde qualquer que permaneceu viva na memória quando quase todo o resto já desapareceu.
Continuo escolhendo um estudante a cada semestre porque algumas apostas desafiam qualquer cálculo. A experiência ensina prudência, reduz expectativas e torna o entusiasmo cada vez mais raro. Mesmo assim, basta encontrar uma pessoa realmente disposta a transformar inquietação em trabalho para que todo o ceticismo recue alguns passos. Talvez a esperança nunca tenha sido uma convicção. Sempre me pareceu mais próxima de um hábito. E certos hábitos merecem sobreviver, sobretudo quando o mundo oferece tantos motivos para abandoná-los.
Existe um erro recorrente na vida intelectual brasileira: imaginar que a grandeza de um escritor reside naquilo que ele diz sobre o seu tempo. A grandeza verdadeira aparece quando o escritor alcança uma camada da experiência humana onde o tempo histórico já não basta como chave explicativa. Nessa região, os fatos continuam presentes, os costumes permanecem reconhecíveis, os acontecimentos conservam sua materialidade. A inteligência do autor opera sobre algo mais profundo: a estrutura da alma.
É por essa razão que Machado de Assis continua crescendo à medida que o Brasil encolhe diante dele. No dia 21 de junho comemora-se o nascimento dessa figura tão importante para as nossas letras.
A crítica universitária passou décadas procurando encaixá-lo em categorias sociológicas, psicológicas, raciais, econômicas, ideológicas. Cada geração fabricou um Machado conveniente para suas preocupações. O resultado é curioso: quanto mais se multiplicavam os Machados teóricos, mais desaparecia o homem que escreveu os livros.
O verdadeiro Machado não é um intérprete do Segundo Reinado. Tampouco é um cronista elegante da burguesia carioca. Essas definições possuem algum valor descritivo. Permanecem na superfície do problema.
Quem abre Memórias Póstumas de Brás Cubas encontra algo muito mais raro: uma investigação sistemática dos mecanismos da autoilusão.
Brás Cubas mente para si mesmo. A descoberta parece simples. Sua execução literária exige um grau de refinamento quase inacreditável. Machado compreendeu que o homem raramente conhece as razões autênticas dos próprios atos. O indivíduo cria versões retrospectivas de si mesmo. Organiza justificativas. Reescreve sua biografia. Constrói uma narrativa moralmente suportável. Em seguida, passa a acreditar nela.
A literatura ocidental conhecia esse fenômeno. Santo Agostinho já o examinava nas Confissões. Pascal o observou com precisão devastadora. La Rochefoucauld transformou-o numa anatomia das motivações humanas. Machado absorveu essa tradição e a transplantou para a língua portuguesa com uma naturalidade desconcertante.
Alfredo Bosi percebeu algo essencial quando descreveu a ironia machadiana como uma forma de conhecimento. Não se trata de um recurso ornamental. A ironia funciona como instrumento cognitivo. Ela remove as camadas de autocomplacência que encobrem a realidade moral dos personagens.
Essa operação alcança seu ponto máximo em Dom Casmurro.
Durante mais de um século, multidões de leitores discutiram a fidelidade de Capitu. A questão possui importância secundária. O verdadeiro mistério do romance encontra-se em Bento Santiago.
Helen Caldwell, em seu estudo clássico The Brazilian Othello of Machado de Assis, percebeu aquilo que grande parte da crítica brasileira havia ignorado: o centro dramático da obra não está na culpa de Capitu. Está na imaginação de Bentinho. A suspeita torna-se um princípio organizador da realidade. O narrador reorganiza décadas inteiras de experiência para justificar uma conclusão previamente estabelecida.
John Gledson aprofundou essa percepção ao demonstrar como a estrutura narrativa do romance produz deliberadamente um estado de incerteza permanente. O leitor recebe interpretações dos fatos. Recebe lembranças filtradas por um homem envelhecido que escreve sob o peso de uma obsessão.
A genialidade de Machado aparece justamente aí.
Ele entrega um problema metafísico.
Como distinguir a realidade daquilo que desejamos enxergar?
Essa pergunta atravessa toda a sua obra.
Em Quincas Borba, a filosofia do Humanitismo costuma ser lida como sátira social. A leitura é correta. Existe algo mais profundo em jogo. O Humanitismo constitui uma caricatura dos sistemas ideológicos que prometem explicar integralmente a experiência humana. Rubião enlouquece porque tenta habitar uma interpretação total da realidade. Sua loucura nasce do excesso de sentido.
Eugênio Gomes observou, há décadas, a presença constante de uma inteligência filosófica subterrânea nos romances machadianos. O comentário merece atenção. Machado nunca foi um filósofo sistemático. Sua literatura contém uma percepção filosófica superior à de muitos sistemas. Ele compreendeu uma verdade elementar: a existência humana resiste ao enquadramento conceitual completo.
Daí sua desconfiança diante dos grandes discursos.
Daí sua aversão à retórica.
Daí sua preferência pela observação minuciosa de um gesto, de uma hesitação, de uma frase aparentemente banal.
A alma se revela nos detalhes.
Os ideólogos procuram abstrações.
Os romancistas procuram homens.
Machado pertence à segunda categoria.
Existe ainda um aspecto pouco comentado. Raymundo Faoro, em A Pirâmide e o Trapézio, identificou a extraordinária capacidade machadiana de perceber a circulação do poder dentro das relações cotidianas. O poder político. O poder psicológico. O poder simbólico. O poder afetivo.
Quem domina uma conversa?
Quem conduz uma amizade?
Quem manipula uma lembrança?
Quem estabelece os termos de uma relação?
Essas perguntas percorrem silenciosamente seus romances.
Nenhum personagem machadiano vive isolado. Todos habitam uma rede de influências recíprocas. Cada palavra produz consequências invisíveis. Cada gesto altera uma hierarquia.
A grande literatura nasce dessa percepção.
A literatura menor descreve acontecimentos.
A grande literatura descreve estruturas permanentes da experiência.
Por essa razão Machado continua atual sem precisar ser atualizado.
A expressão “atualizar os clássicos” revela uma incompreensão fundamental. Um clássico não necessita de atualização. Necessita, isso sim, de leitores capazes de alcançá-lo.
Silviano Santiago observou que Machado escrevia a partir de uma posição de deslocamento, olhando para a sociedade brasileira sem aderir integralmente a nenhuma de suas ilusões coletivas. Esse distanciamento intelectual explica parte de sua força. O escritor não se confundia com as paixões do ambiente.
O resultado é uma obra que educa a inteligência moral do leitor.
Poucos autores realizam essa tarefa.
A maioria oferece emoções.
Alguns oferecem ideias.
Machado oferece discernimento.
Sua prosa ensina a desconfiar das versões prontas. Ensina a examinar os movimentos ocultos da consciência. Ensina que o autoengano constitui uma das forças mais poderosas da história humana.
Num país apaixonado por slogans, por palavras de ordem, por fórmulas redentoras, a leitura de Machado adquire um valor quase terapêutico.
Ele recorda uma verdade esquecida: o homem não é transparente para si mesmo.
Toda civilização que esquece esse fato caminha em direção à estupidez.
Toda literatura que o compreende aproxima-se da sabedoria.
Machado de Assis alcançou essa sabedoria com uma elegância que continua sem equivalente entre nós. Não ergueu monumentos verbais. Não precisou levantar a voz. Não procurou impressionar ninguém.
Limitou-se a observar.
Observou tão profundamente que transformou a língua portuguesa num instrumento de investigação da alma.
É por isso que continua acima de seus intérpretes, acima de suas escolas críticas, acima de suas épocas sucessivas.
Os grandes escritores sobrevivem porque conhecem algo permanente.
Machado conhecia. E escreveu.
Quando a certeza se torna critério de escolha, a capacidade de aprender costuma desaparecer de vista.
Uma das fantasias recorrentes das sociedades modernas é a de que problemas complexos serão resolvidos pela seleção das pessoas mais inteligentes. Empresas procuram os melhores currículos, governos exaltam especialistas brilhantes e investidores apostam em fundadores que parecem capazes de enxergar o futuro antes dos demais. A inteligência ocupa o centro do palco porque oferece uma promessa sedutora: a de que alguém sabe o que fazer.
O problema é que saber muito raramente basta. Grande parte das decisões humanas acontece em ambientes de incerteza, onde informações são incompletas, circunstâncias mudam rapidamente e experiências passadas oferecem apenas orientações parciais. Nesses contextos, a qualidade do julgamento depende tanto da forma de pensar quanto da quantidade de conhecimento acumulado.
Em Ruído, Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein deslocam a atenção para essa questão. Depois de mostrar como os julgamentos humanos produzem inconsistências sistemáticas, os autores voltam-se para uma pergunta prática: quem tende a julgar melhor?
A resposta envolve três dimensões. O que a pessoa sabe, o que ela pensa e como ela pensa. Experiência continua sendo importante. Inteligência continua sendo relevante. Ainda assim, os melhores julgadores costumam compartilhar outra característica menos celebrada: a receptividade diante de novas informações.
Existe um traço psicológico que aparece repetidamente em pesquisas sobre tomada de decisão. Os autores o chamam de receptividade ativa. Trata-se da disposição de procurar evidências contrárias às próprias crenças, revisar conclusões provisórias e admitir a possibilidade de erro. Pessoas com essa característica utilizam suas opiniões como ferramentas temporárias.
Essa postura produz julgamentos superiores porque reduz o risco de aprisionamento intelectual. Quando alguém permanece aberto à revisão, novos fatos conseguem alterar o rumo do raciocínio. Quando alguém transforma uma hipótese em identidade, qualquer informação discordante passa a ser percebida como ameaça.
O resultado é uma inversão curiosa. O indivíduo que julga melhor frequentemente transmite menos segurança do que o indivíduo que julga pior. Isso acontece porque a consciência das próprias limitações gera cautela. Quem reconhece a complexidade do mundo tende a expressar graus de confiança. Quem ignora essa complexidade costuma emitir certezas.
Nossa preferência pelos confiantes nasce exatamente desse mecanismo. Convicção funciona como um atalho cognitivo. Diante da dificuldade de avaliar a qualidade de um argumento, avaliamos a firmeza de quem o apresenta. A segurança na voz passa a ocupar o lugar das evidências. A eloquência assume a função que deveria pertencer ao raciocínio.
Não surpreende que figuras públicas extremamente confiantes atraiam tanta atenção. O sucesso econômico, político ou midiático amplifica essa dinâmica. A riqueza passa a ser interpretada como prova de sabedoria geral. A fama passa a ser confundida com competência universal. A confiança se transforma em autoridade.
O risco aparece quando começamos a selecionar líderes, especialistas e conselheiros usando a convicção como principal critério. A pessoa mais adequada para navegar ambientes incertos raramente é aquela que demonstra certeza absoluta. O julgamento melhora quando existe espaço para dúvida, aprendizado e correção de rota.
Talvez por isso a pergunta decisiva não seja quem parece mais inteligente. A questão mais importante pode ser outra: quem continua aprendendo enquanto os demais já decidiram que sabem tudo.
Quase todo mundo que deseja escrever passa por uma experiência parecida.
Ela costuma surgir cedo. Às vezes na adolescência. Às vezes um pouco depois. A pessoa lê um romance, uma crônica, um conto ou um poema e sente uma espécie de choque. Não exatamente admiração. Menos ainda inveja.
É uma sensação mais estranha.
A impressão de que existe alguma coisa ali que ela também gostaria de fazer.
Então vem a segunda descoberta.
Ela não sabe como.
O mundo parece dividido em dois grupos. De um lado estão os escritores. Do outro estão as pessoas comuns. Os escritores parecem possuir acesso a alguma dimensão secreta da realidade. Conseguem encontrar significado onde os demais encontram rotina. Conseguem transformar experiências comuns em algo memorável.
O iniciante conclui que lhe falta talento.
Durante muito tempo eu pensei assim.
Acreditava que os escritores observavam um mundo diferente do meu. Imaginava que a matéria-prima da literatura estivesse escondida em experiências excepcionais, viagens extraordinárias, acontecimentos históricos, paixões arrebatadoras ou reflexões filosóficas profundas.
A vida cotidiana parecia insuficiente.
Era comum olhar para minha própria existência e sentir que nada nela merecia ser escrito.
Os dias passavam.
As pessoas conversavam.
Os ônibus chegavam atrasados.
Os vizinhos discutiam.
As tardes terminavam.
Nada daquilo parecia literatura.
Depois de algum tempo comecei a perceber um detalhe curioso.
Os grandes escritores que eu admirava frequentemente escreviam sobre coisas muito menores do que eu imaginava.
Proust era capaz de passar páginas inteiras descrevendo uma sensação provocada por uma lembrança.
Machado transformava uma conversa aparentemente banal em radiografia moral.
Nelson Rodrigues encontrava tragédias em partidas de futebol.
Rubem Braga construía crônicas inteiras a partir de uma janela, de uma rua ou de um passarinho.
O problema estava na maneira como eu a observava.
Existe uma armadilha muito comum na formação de quem escreve.
Acreditamos que a literatura nasce quando encontramos assuntos importantes.
Na verdade, ela costuma nascer quando descobrimos a importância dos assuntos.
A diferença parece pequena.
Não é.
Uma pessoa pode atravessar uma praça sem notar nada.
Outra pode atravessar a mesma praça e perceber um casal prestes a terminar um relacionamento, um aposentado alimentando pombos por pura necessidade de companhia, uma criança aprendendo pela primeira vez que pode cair e se machucar.
A praça continua a mesma.
O que mudou foi a atenção.
Talvez seja por isso que tantos aspirantes a escritor permaneçam paralisados durante anos.
Eles estão procurando temas.
A literatura está esperando observadores.
Os temas já estão por toda parte.
Numa fila de supermercado.
Num grupo de mensagens da família.
Num elevador silencioso.
Num velório.
Num aniversário infantil.
Numa conversa que termina alguns segundos antes do esperado.
As pessoas costumam chamar essas coisas de banalidades.
Talvez porque ainda não tenham parado para observá-las de verdade.
A banalidade é frequentemente apenas profundidade mal observada.
Foi isso que Nelson Rodrigues entendeu quando decidiu olhar para o futebol.
Outros cronistas viam resultados.
Ele via personagens.
Outros viam partidas.
Ele via dramas.
Outros viam torcidas.
Ele via multidões revelando medos, esperanças, ressentimentos e desejos que normalmente permaneciam escondidos.
A bola servia apenas como ponto de partida.
O assunto verdadeiro era o ser humano.
Essa descoberta não vale apenas para a literatura.
Vale para quase toda forma de criação.
O fotógrafo aprende que não está fotografando objetos.
Está fotografando relações.
O cineasta aprende que não está filmando cenas.
Está filmando conflitos.
O escritor aprende que não está escrevendo sobre fatos.
Está escrevendo sobre experiências.
E as experiências estão em toda parte.
O problema é que demoramos para acreditar nisso.
Continuamos esperando autorização.
Esperando maturidade suficiente.
Esperando conhecimento suficiente.
Esperando viver algo grandioso.
Esperando nos transformar em alguém digno de escrever.
Enquanto isso, a matéria-prima da escrita continua passando diante dos nossos olhos.
Todos os dias.
Silenciosamente.
Como se tivesse infinita paciência.
Durante muito tempo imaginei que o escritor fosse alguém capaz de encontrar respostas.
Hoje desconfio que seja quase o contrário.
O escritor é alguém que aprende a permanecer diante das perguntas.
Por que aquela lembrança continua voltando?
Por que aquela frase aparentemente inocente ficou ecoando durante anos?
Por que certas pessoas desaparecem da nossa vida sem deixar vestígios e outras permanecem para sempre?
Por que uma rua da infância consegue nos emocionar mais do que lugares objetivamente mais bonitos?
A escrita começa quando paramos de fugir dessas perguntas.
Não para respondê-las imediatamente.
Para habitá-las.
Para permitir que elas trabalhem dentro de nós.
E então acontece algo curioso.
Aquilo que antes parecia comum começa a adquirir densidade.
Os dias deixam de ser apenas dias.
As pessoas deixam de ser apenas pessoas.
As lembranças deixam de ser apenas lembranças.
Tudo ganha espessura.
Tudo ganha profundidade.
Tudo parece esconder alguma coisa.
Nesse momento, o futuro escritor costuma acreditar que finalmente encontrou a literatura.
Na verdade, encontrou algo ainda mais importante.
Encontrou a realidade.
A realidade verdadeira.
Não aquela que usamos para pagar contas, cumprir horários e atravessar a semana.
A outra.
A que vive por baixo das aparências.
A que transforma um gesto mínimo em revelação.
A que faz um cheiro devolver uma infância inteira.
A que faz uma derrota esportiva parecer uma tragédia nacional.
A que faz uma despedida comum carregar mais peso do que muitos acontecimentos históricos.
E então chega o instante decisivo.
O instante que separa quem deseja escrever de quem efetivamente começa.
Você percebe que não está esperando a vida acontecer.
Ela já aconteceu.
Está acontecendo.
Acontecerá amanhã novamente.
Na mesa da cozinha.
Na esquina da sua rua.
Na voz dos seus pais.
No silêncio dos seus amigos.
Nas coisas que você ama.
Nas coisas que perdeu.
Nas coisas que ainda não compreende.
De repente, a sensação de insuficiência desaparece.
Não porque você se tornou mais inteligente.
Não porque se tornou mais culto.
Não porque finalmente encontrou um grande tema.
Ela desaparece porque você compreende algo que os grandes escritores compreenderam antes de você.
O mundo nunca esteve vazio.
Você é que ainda não tinha aprendido a vê-lo.
E quando finalmente aprende, ainda que por alguns segundos, acontece uma espécie de milagre.
A realidade deixa de ser cenário.
Ela se torna interlocutora.
Você olha para ela.
E, pela primeira vez, ela olha de volta.
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